domingo, 13 de setembro de 2009

Abraxas: tudo ao mesmo tempo, o tempo todo!

“Delícias e espanto, homem e mulher associados, o mais puro e o mais nefando confundidos, funda culpa palpitando sob a mais terna inocência: assim era meu sonho de amor e assim era Abraxas.”

(Sinclair, personagem do livro Demian, de Hermann Hesse)

Hermann Hesse, em um de seus mais importantes romances, intitulado Demian, conta a história de um jovem chamado Emil Sinclair. Criado sob as regras tradicionais de uma família cristã, a personagem, de repente, encontra-se numa fase inquieta de sua vida. Quando sai de casa, quando sai do ninho onde se sentia protegido, para estudar em outra cidade, Sinclair se vê num transtorno existencial imenso. Então reaparece um antigo conhecido, Max Demian, um rapaz misterioso, extremamente maduro para sua idade. É ele quem ajuda Sinclair a entender e questionar tudo aquilo que lhe parecia sólido, como sua religião, sua família e seus conceitos sobre o mundo e sobre ele mesmo. Assim, além de mostrar-lhe o caminho para o auto-conhecimento e para uma visão mais crítica da realidade, Demian apresenta-o a um deus da Antiguidade chamado Abraxas.

Abraxas era cultuado por algumas seitas gnósticas e acreditava-se que ele reúne em si mesmo tanto o mal quanto o bem. No entanto, não os separa. Mistura-os em seu ser e, por isso, não é onibenevolente. Sua aparência é um tanto quanto exótica: tem a cabeça de um galo, o corpo de um homem e, no lugar das pernas, existem cobras.

Seu nome forma, em notação grega, o número 365. Assim, nas seitas crentes em Abraxas, acreditava-se que existiam 365 ordens de espíritos e a mais inferior dessas ordens era a Terra. Não é coincidência este número ser igual à quantidade de dias em um ano. Afinal, a palavra abraxas é originalmente um antigo termo usado pela Astronomia para designar a posição do Sol em relação às estrelas de fundo (aquelas que não conseguimos ver) durante os 365 dias do ano. Percebe-se, assim, que mais uma vez a humanidade inventou uma interpretação para algo puramente científico, transformando um termo relativo à Astronomia em um deus mítico. Não digo que isso não tenha gerado interessantes histórias fictícias, pois isso acontece sempre que as religiões e suas histórias são criadas.

Deste modo, o mais interessante nesse deus é o fato de ele ser TUDO. Não é apenas o bem (assim como o Deus cristão diz ser, mas não é) e não somente o mal. Tampouco ora é o mal, ora é o bem. Ele é tudo ao mesmo tempo. Tudo junto e misturado, como já disse um dos ícones de nossa cultura (?) popular capenga. É demônio e é deus, ódio e amor, yin e yang, o tempo todo. Convenhamos, é muito melhor acreditar num deus assim do que em um deus que nos pune até por causa de nossos pensamentos. Afinal, como Abraxas poderia nos punir por pensarmos em alguma maldade se ele mesmo é assim? Mas o grandioso neste deus está na quebra da dualidade inventada pelo homem. Nele, o mal e o bem não existem, pois são a mesma coisa, assim como devemos interpretar nossos sentimentos, como uma coisa só.

Nota: se ainda não leu, leia agora (ou se já leu, releia) o post O maniqueísmo e suas limitações”

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